Sovina

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Entre tantas possibilidades, ele escolheu ser pãoduro. Daqueles mãodevaca mesmo, que economiza até o hífen. Trabalhava pra gastar consigo, não dedicava um tostão furado aos outros e ainda se oferecia pra tomar vez por outra um cafezinho com um colega de repartição.

Vivia sozinho, em casa herdada, velha e sem anexos pra não aumentar impostos, mas nem por isso mal cuidada, afinal, era ele quem vivia ali. Também tomava banho com frequência, comia bem e mantinha a luz acesa enquanto lia, o que fazia muito. Os livros eram emprestados.

E como muito da vida não cabe nas escolhas, um dia se apaixonou. Trocava olhares, palavras doces, carícias, afinal, eram trocas, dava, mas levava. Só não conseguia conceber dar seu coração a alguém. Dar não, era demais pra ele. Chorava toda noite por perder o que era seu.

E aquilo o foi amargurando a ponto de deixar de trabalhar e ela o visitar em casa, o que lhe economizava a sola de sapato, mas não diminuía a lástima de estar perdendo o que lhe era de direito. De nascença.

E nos devaneios alucinatórios dos dias de febre, encontrou uma forma de sair ganhando. Disse que, por ordens médicas, precisaria de repouso e no dia seguinte não poderia ver ninguém. Ficou em casa, quieto, e no outro foi trabalhar, como se nada tivesse acontecido. Era dia seguinte ao dos namorados e pelo menos economizara o presente.

Gustavo Burla

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