Mal do século

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A primeira vez em que se esqueceu, esqueceu que tinha se esquecido. Confuso assim. Ali estavam: papel de carta desses antigos de meninas colecionadoras, caneta colorida, o perfume já quase no fim com o qual borrifaria algumas gotas no envelope branco para que seu cheiro o atingisse antes mesmo de suas palavras. Lera uma vez, não lembrava bem quando ou onde, que o olfato é o mais mnemônico dos sentidos e não queria arriscar a possibilidade de ele não se recordar de sua letra meio inclinada para a direita ou de suas frases de amor ensaiadas na frente do espelho. Era uma carta de amor afinal, e cartas de amor precisam ser memorizadas, decoradas, incorporadas como textos de teatro. Cartas de amor são prelúdios de Shakespeare.

Ali estavam, pois: papel de carta desses antigos de meninas colecionadoras, caneta colorida, o perfume já quase no fim cujas últimas gotas despejou no pescoço, esquecidas do envelope branco. Olhou a folha vazia e pensou aflita que precisava escrever uma carta de amor. Mas para que amor? Como pudera esquecer o nome do destinatário?

Depois, porém, esqueceu a aflição, o esquecimento, e o próprio amor ficou esquecido sobre a mesa.

Táscia Souza

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