Preconceito

Padrão

Na esquina tinha uma padaria e uma banca de jornais e revistas e balas e cartões telefônicos e cigarros. Também tinha um eventual sujeito, derivativo da palavra sujo, pedindo um trocado, um biscoito ou um gole de cachaça. Naquele dia tinha um moleque, nem tão sujeito, até um pouco arrumado, que veio na minha direção.

– Me compra uma…

– Não tenho.

– …revistinha.

Já tinha dado a resposta e segui em remorso. E na inércia cotidiana não voltei, deixei minha resposta e continuei em direção ao almoço, que dividiu espaço com a negação não digerida. Voltei pelo mesmo lugar e ele não estava mais lá. Os olhos um pouco tristes talvez tenham encontrado as letras da história em quadrinhos e mudado. Os meus não, perderam a chance de serem cidadãos.

Gustavo Burla

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