Pingar e pongar

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Corri de calcinha pela rua. Em pleno subúrbio do Rio, uma louca sai gritando de calcinha. Uma enfermeira começou a me apalpar. Não era eu quem estava doente. Era meu pai, deixado roxo no chão da cozinha.

Enquanto me vestia, ela o examinava. Era grave, não se podia esperar ambulância.

No hospital, mamãe chorava. Mais de remorso. Ela ficou insistindo que era apenas dor muscular, ao invés do verdadeiro infarto. Enquanto ele reclamava ter um trem pesando no peito, por horas, ela culpava as partidas jogadas no dia anterior, de duas da tarde até as oito da noite. Relaxante muscular foi inutilmente prescrito por mamãe.

Eu me lembro de tê-lo visto jogar. Era imbatível, estava possuído. Por isso, no fundo, todos só sabem dizer que meu pai morreu de tanto jogar pingue-pongue. Que infantil! Que idiossincrasia!

Doamos os órgãos, organizamos enterro e funeral, enquanto ele ainda estava em coma. Na velocidade de uma bolinha, ele passou pelos meus olhos. E não passou de volta.

José Eduardo Brum

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