Elétrica

Padrão

Aos cinco anos, no colo de meu avô, adquiri um hábito. Enquanto ele conversava, eu colocava, sorrateiramente, meu dedo na cerveja dele, de maneira veloz, para me deliciar com o gosto amargo. Um dia ele percebeu. No susto, me deu um tapa violento de repressão, que bateu em mim e derrubou todo o líquido dourado e espumante. Eu estava com um dente mole, também vítima do golpe. Ele desceu goela abaixo, enquanto o sangue saía de mim, misturava-se com a cerveja na mesa. Não chorei. Nunca mais sentei no colo dele.

Com 11, eu e meu irmão roubávamos cigarro do Tio, todo final de semana. Nós tirávamos um do maço, que sempre ficava na janela, e jogávamos pelo ar. O outro recolhia e fumávamos atrás da piscina. No último furto, alguém assustou meu irmão. Ele voou pela janela, indo de cara ao chão. Afundou o nariz. Dessa vez, o sangue ficou em mim, marcado. Desde então, nunca mais fechei qualquer janela.

Na faculdade, com 19, experimentei lança perfume. Foi a melhor sensação. Me sentia fora do corpo, flutuando. Não percebi que, na verdade, eu vagava, ermo, pelos amigos, saindo dos limites da festa, até ser atingido por um carro. Fui lançado numa cerca de espinhos. Eles cravejaram minha pele, rapidamente me tiraram do estado de transe. Não houve sangue, só perfuração rasa. No entanto, sinto cada picada até hoje. Acho que estou contaminado.

Tive outras experiências com drogas. Todas desastrosas, é fato. Só aprendi a parar de usá-las quando algo acontecia. Vivemos por meio de padrões. Só não aprendi a deixar de ser uma droga de profissional, filho, pai, marido. As leis de repulsa são verdadeiras, cargas iguais se repelem.

José Eduardo Brum

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