Sem escolhas

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Uma vez ouvi dizer de uma pessoa monstruosa que o pior profissional é o dúbio. Não dei crédito na época. Palavras vindas de uma mulher terrível, uma praga, preocupada apenas consigo própria, não me tocaram. Que gabaritos ela teria para aferir tal ponto de vista? Hoje fico remoendo se ela não teria razão.

Profissional dúbio seria aquele com uma formação em campos distintos. Um arquiteto, acostumado a decorar ambientes idílicos e especiais, torna-se estudante de odontologia. De repente, o trabalho inicial se vê cheio de arremates bucais, predomínio do branco, móveis elevados como as cadeiras de dentista. Num mundo tão simples e identificável, ser tão diferente não condiz. Certo?

Conheci um jornalista que se tornou médico. O texto simples tornou-se muito explicativo, utilizava termos biológicos, desconhecidos e intrincados. A letra piorou a ponto de nem ele conseguir decifrar os blocos de apuração. Ele realmente sofria por ser um híbrido intrínseco, ou seja, sabia que tinha um pé na comunicação e outro na medicina. Porém, não conseguiu se definir. Uma aposentadoria, com cara de auto-exílio, era a sua salvação.

Pode parecer prático, enriquecedor, interessante, complementador ser um profissional dúbio. Na teoria sim, na prática não. Ninguém quer o diferente, o contestador. O feio é inconcebível. Mais triste é perceber que a pessoa horrorosa, criadora do dúbio, é a normal, a pacífica, a vencedora, a sábia, a valorosa. Era uma mensagem para mim, que me tornei um dúbio, sem perceber, sem prever. Tem coisas que não voltam mais.

José Eduardo Brum

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Uma resposta »

  1. Não sei, de uns tempos pra cá eu parei de ouvir estas “verdades verdadeiras” e passei a seguir minhas próprias vozes. Tenho quebrado menos a cara simplesmente porque parei de limitar as pessoas. Nossa cultura tem disso, das coisas terem de ser isso ou aquilo, oito ou oitenta,.. o ambivalente (ou polivalente) e o ambíguo são impuros, errados e não sustentáveis.
    Da Vinci era geólogo, engenheiro, pintor, anatomista, botânico, matemático… a lista continua.
    Hoje vivemos mais, temos acesso a mais coisas e informações, já é um tanto ultrapassado ser apenas uma coisa, ter apenas uma formação, uma profissão, um sorvete favorito, uma cor…

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