Conto de verão

Padrão

Era uma vez uma menina de pele branca como a neve, cabelos negros como o ébano e lábios rubros como o sangue. No inverno, uma rainha costurava, ao lado de uma janela de umbral talhado em madeira negra. Ao lançar o olhar para o jardim, coberto pela nevasca na noite, picou o dedo com a agulha, e três gotas de sangue pingaram sobre a superfície pálida. O contraste a fez pensar que, se tivesse uma filha, gostaria que fosse “alva como a neve, rubra como o sangue e negra como o ébano da janela”. Não tardou, e a rainha teve uma filha de descrições idênticas ao seu pedido: branca como a neve, com os cabelos negros como o ébano e os lábios vermelhos como o sangue. Mas, tão logo a menina ve…

– Não foi bem assim, você sabe.

O homem interrompeu a leitura, olhando para o rosto da mulher grávida, que se abanava com a última revista de fofocas comprada na banca da revista. Acostumara-se a contar-lhe histórias para a barriga, afirmando que a filha de um pai escritor – sim, era uma menina – deveria se acostumar com histórias desde antes de nascer.

– Não? – questionou meio emburrado, erguendo apenas uma das sobrancelhas em sinal de desafio. Afinal, o escritor ali era ele! O que ela pensava para intrometer-se em suas histórias? A esposa, porém, apenas mordeu o canto da boca e levantou, acariciando o ventre arredondado enquanto se aproximava da geladeira.

– Na verdade, não nevava. Pelo contrário. Era um dia de calor insuportável, daqueles que fazem a gente ter a sensação de que nossa própria pele está se liquefazendo e encharcando nossas roupas. Que nem hoje. E a mulher não costurava; ela se abanava com uma revista de fofocas de celebridades enquanto pensava no que fazer pra se livrar daquele inferno. Pensou até em se enfiar dentro do freezer, mas, quando abriu o congelador, lá estavam: as paredes do eletrodoméstico completamente brancas de água congelada, as latas vermelhas brilhando como um oásis no deserto e…  – como se encenasse a história, ela mesma puxou o anel metálico, fazendo com que o costumeiro “tsss” ecoasse pelo cômodo de azulejos – …o líquido quase negro e estupidamente gelado descendo pela garganta. – Deu um gole, deixando inconscientemente que ele admirasse as veias de seu pescoço, e depois soltou um suspiro. – Então ela pensou que, quando tivesse uma filha, gostaria que fosse alva como a parede interna do refrigerador congelado, com os lábios vermelhos como a lata de metal e os cabelos escuros como uma Coca-Cola.

Táscia Souza

Anúncios

Uma resposta »

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s