Consulta médica

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Foi na mesa do almoço de família que uma irmã disse que tinha feito os exames de rotina naquela semana. Teria que operar logo, ou começaria a sentir dores. Nada grave, operação simples, mas os exames eram incômodos. Dores Dolores já sentia e manteve-se calada, sempre tivera medo de médicos.

Se tivesse tempo, talvez dormisse, mas naquela noite os pensamentos sobre a fala da irmã a dominaram. Já sentia dores no intestino por semanas e se a irmã, que não as sentia ainda, já estava em pés de cirurgia, imagine ela. Operar!, pensou, pior que ir em médico e fazer exame era entrar na faca. Mas poderia morrer da doença, concluiu, e marcou médico.

– Pra hoje só tem duas da tarde e cinco e quinze.

Adiou o que pôde, dentro de seu desespero, e foi às cinco e quinze. Chegou cinco, pensando em fazer ficha, responder perguntas e tornar-se apenas mais uma paciente antes de entrar no consultório. Cinco e quinze estava tudo resolvido e procurou lugar para sentar no meio da quase multidão na sala de espera. Outros médicos devem dividir a secretária, pensou, para poupar custos.

Só que um a um foram entrando os pacientes e quando chegou a quarenta e cinco minutos de atraso, meio jogo de futebol, já suava de raiva: ainda vai demorar muito? Ele atrasa mesmo, ele é muito bom, respondeu a secretária sem levantar os olhos. Se fosse bom atendia na hora! e saiu. Preferia morrer de doença a morrer de raiva.

Gustavo Burla

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