Broto

Padrão

– Tem alguma coisa crescendo em mim, está me incomodando.

Repetia, soltava de repente. Ninguém acreditava. Impressionado, não recebia mais crédito ao reclamar de dor, incômodos e enxaquecas:

– Isso está me comprimindo, eu sinto dentro da carne, crescendo, me apertando. Coço o nariz e a sensação não passa.

Mais agitado, como se fosse possuído, sugeriram que ele deveria tirar as férias acumuladas. Indicaram psicólogo. Ter tanta saúde evidenciava que deveria ser algo mental:

– Minha vontade é sair cortando meu nariz. Arrancá-lo, destroçá-lo. Que inferno! Não é verme, porque só me esmaga, não está me comendo. Eu sinto.

Era aniversário da esposa, família toda reunida. Ele, sozinho no canto, triste pela descrença. Até que começou a expirar, cada vez mais forte, a se contorcer e se debater sentado. Gritou.

As pessoas já iam desviar o olhar, quando pegou uma tampa da panela e a colocou em frente, como um espelho. Com uma destreza fenomenal, enfiou os dedos no nariz. Puxou bem devagar, respiração parada, no fundo desejava que não fosse possível.

Ele ficou contemplativo e feliz. A esposa caiu desmaiada. O filho vomitou. A filha gritou. A sogra tremia. O sogro ria de nervoso. A cunhada congelou estática. O amigo piscava desesperadamente. Ele tinha puxado um broto de alface do nariz. Mais misteriosas do que a germinação, eram as teorias de como uma semente parou ali.

Nunca mais teve dores e incômodos. Se ameaçasse dizer algo, lembrava da hortaliça e ria. Só se arrependeu de, ao invés de ter jogado fora, não ter plantado e a comido depois.

José Eduardo Brum

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  1. Nossa Zé que descrição mais realista, eu senti todos os incômodos que o personagem viveu rsrs. Quem me dera se tudo o que nos comprime, nos incomoda fosse um broto de alface no nariz.
    Texto totalmente condizente com o tema do blog.
    Excelente narrativa. Parabéns.
    Aguado sua próximas postagens 🙂

  2. Ameei muito! E o final do arrependimento foi ótimo hahahaha!
    Me fez rir e pensar ao mesmo tempo!
    Parabééns pela criatividade!
    Também estou ansiosa pelos próximo textos…
    Beijão

  3. Uma manhã eu acordei com uma dor insuportável no ouvido. Achei que era otite ou coisa parecida, estava resfriado e tinha pegado vento durante a noite, mas também estava meio cético, nunca tive qualquer problema no ouvido, nem quando bebê. Todos me disseram que era otite e já estavam me receitando remédios. Decidi ir ao médico. Felizmente não tinha horário e fui ao otorrino. Ele colocou a câmera no meu ouvido e encontrou uma coisa branca, que só com uma lavagem poderia ser removida. Quando a coisa branca caiu no potinho, eu não acreditei. Nem ele. Era um grão de arroz. Ele me perguntou como o arroz foi parar dentro do ouvido, eu também queria saber. O grão estava encostado no tímpano, por isso eu sentia dor. Se tivesse ido ao clínico, ele diria que era otite e me entupiria de remédio. Com o tempo, o corpo englobaria o arroz (se não causasse nenhuma infecção). Ainda não sei como o arroz foi parar no ouvido, mas não quero saber. Gosto destes mistérios. A história é verdadeira.

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