Congresso de medicina

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Mas era um congresso de medicina. Daqueles com senhores gordos de jalecos brancos, senhoras alouradas com colar de pérolas e estetoscópios e acadêmicos meio esverdeados de hospital. Era esquisito, portanto, que logo ela, que não entendia bulhufas de medicina, tivesse sido convidada para ministrar uma palestra ali. Tampouco vestia branco, sobretudo porque havia dois meses se encontrava ligeiramente (para ser simpática) acima do peso. A questão era que, como poeta, autora de livros, colunista de jornal, vassourinha de saraus, entendia bem mesmo de metáforas. E o que são enfermidades senão metáforas de uma vida que sofre?, pensava ela, empurrando com satisfação os óculos sobre o nariz entendido. Nada como a compreensão.

De todo modo, aquilo ali era uma fonte inesgotável de novas metáforas para seus saraus, colunas, livros, poemas. E ela tomava e tomava notas esperando sua vez. Passadas algumas horas de conferências esquizofrênicas sobre patologias de nomes estranhos, foi chamada à mesa. No mesmo instante em que ligou o microfone, contudo, foi acometida de um sem número de calafrios e mal-estares súbitos que mais pareciam a combinação de todos os sintomas de todas as doenças descritas anteriormente ali. E mais um pouco.

Não houve palestra sobre metáfora, mas a principal publicação daquele Congresso foi um detalhado estudo de caso sobre hipocondria.

Táscia Souza

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