Desorientado

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A formação em Geografia não ajudara muito: Marco nasceu desorientado. Sabia exatamente onde era o Norte, antes mesmo de abrir os braços no primeiro dia de aula e apontar para o sol nascente, mas não sabia se orientar. Mostrava no mapa, ou sem ele, onde ficava distante de onde, as altitudes, as correntes marítimas, os ventos alísios, mas não sabia se deslocar ali.

Se na infância achavam que ele brincava, o primeiro caso grave aconteceu quando foi sozinho ao centro da cidade. Dois dias depois chegou em casa, em carro de polícia, e a mãe, aos prantos, foi abraçar o filho, pra depois ensinar qual ônibus para na porta de casa e onde pegar. Não adiantou.

Um dia entrou numa galeria, parou numa loja e, ao sair, não sabia pra que lado andar. Foi um pouco pra lá, depois pra cá, voltou pra loja e comprou de novo, achou mais fácil. E também não tinha carteira de motorista, não fez nada além de ligar o carro.

Fica complicado de entender contando assim, rapidamente, mas meu último encontro com Marco ajuda. Estava do outro lado da rua, de frente pra própria casa, parado. Tudo bem, Marco? Não, respondeu, tenso. O que houve? Estou indo pra casa. Sua casa é ali. Sim, mas não sei chegar lá.

Gustavo Burla

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