Viagem ao centro do nada

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Às vezes, quase sempre, ele se perguntava o que estava fazendo ali. Sentava no canto, meio de lado, com o vento que entrava pela janela bafejando-lhe a nuca. Mas era uma carteira suficientemente na frente para tentar ouvir a voz meio sussurrada do professor. O professor, já idoso, tossia alto, mas falava baixo, talvez para compensar o esforço da garganta.

Ao longo das três horas durante as quais ficavam ali (ou duas horas e vinte e sete minutos, descontados os atrasos do mestre e o longo intervalo para um café na cantina e um cigarro no corredor), os colegas pareciam executar uma coreografia, seus corpos inclinando-se cada vez mais para a frente para tentar ouvir o professor e, em seguida, voltando para trás e relaxando-se em tédio na cadeira quando a frase recém-completada revelava-se mais um assertivo nada sobre o mais retórico lugar nenhum.

Numa dessas, o discurso realmente ficou interessante e parecia que ia enfim dar em alguma coisa. O mestre inflamava-se em suas elucubrações e, quando se inflamava, ao contrário da maioria, baixava mais e mais a voz, obrigando a turma inteira a estirar ao máximo seus troncos e pescoços para a frente, olhos arregalados e respiração suspensa, esperando o grand finale.

Um ônibus passou bem na hora e ninguém ouviu.

Táscia Souza

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