Eu, sorvete

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Queria ser coberto de sorvete. Tudo o que mais queria no mundo, ou naquele dia escaldante de mundo, era ser sorvete. Cego pelo reflexo do sol nos telhados de amianto improvisados pela cidade, refletia a luz nas gotas que escorriam da testa às pernas. A camisa abotoada, a gravata querendo se soltar, as manchas nas axilas e a obrigação pela compostura.

 O tempo escorria como a tarde e tão logo pingou sua última gota a gravata se soltou e a camisa suada correu em direção à sorveteria pouco adiante, duas quadras. Ali queria ser tudo, limão, flocos, chocolate, creme, paçoca, brigadeiro, quindim, pistache, uva, caramelo, nozes, morango (detestava morango, mas), manga, abacaxi, castanha, lights e diets. Colocou duas bolas na casquinha, queria sentir o doce escorrendo pelas mãos, e foi paquerando a escultura pela rua.

Lambrecando-se (marmanjo!), confundia língua e lábios no coito estabelecido na calçada, em um só corpo, e ignorava o mundo ao redor, mesmo o sol, que não mostrava recíproca. Braços melados e o sorvete continuava escorrendo, língua e lábios não conseguiam agir a tempo. Ali, desfeito em sua mão, estava ele mesmo, como estivera o dia todo, curvado em gotas. Suado, melado e vazio como a casquinha que sequer comera, foi pra casa com sede.

Gustavo Burla

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