Possessão

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Sem querer, soltou uma fala da peça, com a mesma entonação dita no palco. Estranhou. Com a intensificação dos ensaios, percebeu que essa invasão oral, em seu cotidiano coloquial, tornava-se mais frequente. Sobressaltou-se.

Os colegas de trabalho perceberam que ele estava mais ardiloso, menos exíguo, mais excelso, menos exânime. Família pontuou que essa gama de atributos não lhe fazia parte. Ele sabia que pertencia sim ao personagem, à criação teatral efêmera.

No ensaio geral, durante uma longa cena na qual ele só observa, confrontou-se internamente. Só ele falou, argumentando que o arroubamento tinha de parar, não estava certo. O personagem não poderia emergir fora do palco, no dia a dia. A falta de domínio do próprio corpo só poderia ocorrer em cena para dar vida ao irreal.

Até que durante a mesma cena contemplativa do segundo espetáculo, outro embate ocorreu. Foi a vez de o personagem falar e se impor:

“Ou você me aceita sempre, ou eu saio de você. Te deixo na mão, aqui e agora, sem reação e falas na frente de todos. Vai ser o maior dos brancos, a verdadeira vergonha.”

Desesperado, acatou. Não era um ator de improviso.

Após o aceite, pensou em largar os palcos. Era tarde demais. A partir de então, personagem dominou a vida particular e pública. E ele só pôde existir como si próprio nas ribaltas.

José Eduardo Brum

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