Septoplastia

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Mundos paralelos habitavam seu nariz. Mundos paralelos, aliás, que possuíam suas próprias reproduções das estações do ano. No verão, a úmida, rios caudalosos (es)corriam cascatas abaixo, ora numa abundância cor de Mata Atlântica ora num branco límpido, solar. Já no inverno, com a estiagem, a represa secava e transformava-se em aridez, paredes cavernosas soltando pedaços desérticos de muco ressequido, só irrigadas, vez ou outra, pelo que apelidou de veias abertas da alérgica narina.

Ela lavava os dutos nasais e imaginava os homenzinhos verdes que ali viviam (seu nariz tinha ares marcianos) surfando na torrente; ou, caso já fosse a outra estação, os habitantes da outra dimensão pelejavam com a mucosa sertaneja a sugar toda a umidade em desespero respiratório sem deixar nenhuma gota. Assoava aquele universo e o lenço de papel, a depender da época, podia ser tomado tanto por uma caravana de retirantes quanto por vítimas de um tsunami.

Quando operou o desvio de septo na tentativa de se livrar da rinite, o bisturi arrancou-lhe também a imaginação.

Táscia Souza

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