Meu Salomão

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Saí desafiando, voltei desfiando piedade. Meu pai me viu batendo a porta, aos 16 anos, brigando pra ser emancipada. Tempos depois, ele criava uma fresta pra que a desbocada filha retornasse triste, descabelada, fedida, manchada, envergonhada.

Ao contrário do desassossego traspassado, meu filho dormia em paz. Coloquei-o no sofá antes de me virar para o interrogatório. Contei que estávamos brigando muito, não tinha solução sem ser a separação. Tinha acabado de abandonar a casa que havia forjado. Desisti.

Meu pai, sério, meneava a cabeça. Tranquilizei. Nas adversidades, podemos nos revelar ótimos seres humanos. Até que ele se pronunciou:

“Você é minha filha. Seu lar sempre será aqui. Tenho responsabilidade por você. Mas não pelo seu filho que tem de ficar na casa de origem dele. Ou você o deixa com seu marido, ou expulsa o traste da casa pra você viver como uma separada. Hoje vocês ficam. Amanhã não quero meu neto aqui.”

Nem esperei as palavras assentarem. Peguei meu filho aos solavancos e bati com mais estrondo a porta. Nunca mais vi meu pai. Só agora traduzi os motivos: à custa do nosso contato, me jogou de novo até meu marido. De um jeito preciso, pois orientações felizes não me atingem, ele fez que eu me retomasse, que jamais eu recuasse. Meu pai me conhecia.

José Eduardo Brum

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