Dia de feira

Padrão

Programou de passar na feira, acordou cedo e antes de vislumbrar a multidão já sentia o cheiro de verdura fresca. Não estivesse andando pela calçada irregular, teria fechado os olhos para se deixar levar. Parou exatamente no meio da rua, contemplando a perspectiva de barracas, mas nem se demorou: quanto mais rápido fosse, mais cedo poderia sair para fazer compras.

Seguiu nos passos enquanto ainda respirava o cheiro do pastel, via as cenouras alaranjadas e imaginava a batata com cebolas que cozinharia para o almoço. No prato, um toque de vermelho com tomates e, claro, espinafre, paixão da infância.

Atendeu clientes pensando em pêra, maçã, goiaba e uva. Suco de abacaxi fresquinho. Uma trabalheira para fazer, descascar não tinha virado metáfora em vão, mas compensava no resultado. E com os clientes vinham mel, ovos, banana e abóbora. Só a pausa é que não vinha.

Com lágrimas nos olhos comeu coxinha na cantina. Não pela coxinha, mas pelo coração que se desmontava com as barracas, as lonas e as Kombis encaixadas nas ruas. E nos olhares da tarde via bagaços, cascas jogadas, papel amassado e caixas abandonadas.

Na volta, parou no mesmo lugar e viu a rua como seu dia: vazio. De novo.

Gustavo Burla

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