Sem escapismo

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Não era a culpa das estrelas, nem do espiritismo. No entanto, Raul repetia que ambos eram os causadores da vida que levava.

Se ele vivia cansado, acusava a condição de trabalhador europeu no início da Revolução Industrial, com longas jornadas de 20 horas. Se não conseguia namorar uma, era por ter sido um sultão com harém de muitas. A falta de diploma se justificava pelas muitas vidas como iletrado.

Adorava andar pelado, se exibindo. O que fazer se havia vivido como índio, totalmente nu, antes da chegada dos portugueses? Com dinheiro da família, virava mestre em confisco devido ao constante trabalho de cobrador de impostos durante a idade antiga.

Sempre tinha uma resposta no passado para fundamentar erros e acomodações do presente. Afinal, Raul estava simplesmente carregando a vivência do espírito.

Até que morreu, atropelado. Não viu o ônibus chegando, pois se acostumara a charretes na era das trevas.

Na fila da análise espiritual, já esperava a próxima aventura terrena. Porém, o veredito não permitia retorno: era uma criatura sem alma por tanta invocação do que foi.

Isolado num limbo, aprendeu que a culpa era de si mesmo.

 

José Eduardo Brum

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