Primeiro da fila

Padrão

Acordara com o galo para chegar à padaria. O cheiro de pão vinha pela grade sobre a entrada ainda fechada, as vozes lentas dos funcionários anunciavam a hora de abrir. Levantada a porta, entrou seguido por um porteiro que pegaria no serviço depois de tomar café, comprou seu pão antes e partiu comendo o miolo.

Quando chegou para a fila, já não era o primeiro. Na sua frente estava Dona Lizéria, velha conhecida das manhãs. Cumprimentou com toda a simpatia que podia e ficou de pé ao lado dela, esperando abrir o laboratório de exame de sangue. Estivesse mesmo ali para fazer o exame, não faria, o encontro matinal deixara a pressão alta.

Liberada a porta, meia dúzia atrás dele, despistou antes de pegar a senha e saiu para o banco, onde foi triunfante o primeiro a chegar. Trocou conversas de todos os dias com os velhos de todos os dias e despediu-se deles após a linha de chegada.

No supermercado, ficou com um produto na mão à espera de formar fila de pessoas que não deveriam estar no caixa para idosos. Quando a quantidade crescia, fazia questão de passar por todos dizendo que era o primeiro da fila.

Numa noite foi dormir com o novo objetivo: ser o primeiro a chegar para a primeira missa do domingo. Queria esperar na porta até alguém abrir, símbolo maior de sua fé na fila. Dormiu feliz pela nova meta, acordou na hora prevista e chegou no meio do ato penitencial. Era o primeiro dia do horário de verão.

Gustavo Burla

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