Noites em claro

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Toda noite, antes de dormir, seguia o ritual. Com a casa apagada, certificava-se de que a senhora do prédio marrom havia feito as orações, o velho da terceira janela tinha tomado o remédio, a moça se analisado diante do espelho e a criança fechado o livro que lia escondido dos pais. Se a noite de todos estava terminada, podia dar por acabada a sua.

Quando a jovem de cabelos claros passou a vigiar-lhe o quarto, dormir tornou-se tarefa complicada. Não gostava que ninguém o visse, que acompanhasse seu ritual, que sequer imaginasse que ele estava ali àquela hora da noite. Ela olhava, bastava ele entrar no quarto e os olhos fitavam-lhe.

A senhora rezou, o velho medicou-se, a moça admirou-se e a criança leu. Ele não dormiu. Ficou olhando o que a senhora fazia depois, o que o velho fazia depois, o que a moça fazia depois e o que o menino fazia depois, mas não conseguiu fazer. Não com aqueles olhos mirando seu sono.

Dormiu no sofá por dias, por um mês para ser preciso, até que trocaram a empena do prédio em frente por outra só com palavras.

Gustavo Burla

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