Sinal dos dentes

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A dor de dente era o anúncio infalível: gravidez. Foi assim com a mãe, a mãe da mãe, a mãe da mãe da mãe… Não tinha cólicas, enjoos ou outras enfermidades típicas de gestantes. A não ser pelo tremendo desconforto de nove meses, migratório pela arcada.

Só restava acostumar, porque a intensidade apenas variava. Por milagre, o incomodo às vezes podia diminuir até ficar quase imperceptível. Contudo, havia momentos em que a dor era tremenda, fazendo-a urrar e se contorcer. Só não era pior que o momento do parto. Mesmo normal, sem qualquer anestesia, não tinha dores nas partes íntimas. Tudo fluía exclusivamente aos dentes. Nesses momentos sonhava em ser banguela ou ter dentadura.

No decorrer da quarta gravidez, já estava aflita. Não achava que suportaria mais. Era um martírio. Precisava acabar com isso. A solução só veio enquanto se dirigia para parto, com a bolsa já rompida. Simplesmente trancou as pernas, recusou a fazer força.

O marido desesperado, sofria, achando que ia perder a amada. Os três meninos estavam estáticos, de olhos esbugalhados sem entender o que se passava. Rapidamente o pai implorou por uma cesariana. Assim que a cortaram e puxaram mais um garoto, ela gritou:

– Liguem as minhas trompas! Não vou ter nenhuma menina. Essa praga de maldição acaba hoje, comigo!

Não adiantou. Anos depois, todas as quatro noras passaram pelo mesmo calvário.

José Eduardo Brum

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