Crise

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Ela gostava bastante da vida de casada. Ao contrário da maioria das amigas, e também da mãe, da avó, das tias, das vizinhas (e das mães, avós e tias das amigas e das vizinhas), não tinha uma reclamação sequer. Problemas de convivência? Não. Toalha molhada em cima da cama? Também não. Pasta de dente apertada no meio? Nunca. Futebol e cerveja no meio da semana? Tampouco. Ela e o marido viviam a relação perfeita. E, o que é melhor, num apartamento que, ao que tudo indicava, era à prova de lagartixas.

Em mais de seis anos de casamento, jamais algum exemplar do réptil ousou se esgueirar pelas frestas e desfilar translúcido e ultrajante pelas paredes. Para ela, era o significado máximo de lar que qualquer pessoa podia almejar.

Foi na véspera do aniversário de relacionamento que, ao chegar em casa depois do trabalho, ele se deparou com ela aos prantos, olhos vidrados no pequenino ser rastejante que se insinuava sorrateiro por baixo da porta (completamente fechada e sem frestas!!!) da sacada do décimo quinto andar.

– O que foi, amor?

– A maldita crise dos sete anos!

Táscia Souza

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