Aquele piercing

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No meio da poltrona de três lugares do avião, foi convidado pela vizinha do corredor pra dar uma volta no banheiro. Ela lia revista e percebeu, numa escapada de olho, o volume no banco ao lado, o qual só teve certeza de não se tratar de cobertor quando a mesa pra refeição não conseguiu baixar por completo.

Foi quando sentou-se de volta que a outra vizinha, até então entretida com decolagem, oceano e pôr-do-sol, percebeu a oferta e, constrangida, desviou o olhar, encontrando o da moça do corredor, que brilhava. Mais tímida, demorou um pouco mais a estreitar conversa.

Acanhada somente no início, demorou-se na performance no banheiro apertado, ao que a fila prolongou-se; era aquele horário entre a comida e o sono. Quando a porta foi aberta, a aeromoça puxou o rapaz pro fundo da aeronave, onde ele imaginou que tomaria esporro. Deu.

Na volta pra poltrona, trocou olhares a esmo e despertou atenção com esbarrões, mostrando que o sangue da família era forte e resistente. Madrugada longa como o voo, que iria pra Moscou, com pouco sono dele e dos vizinhos dos banheiros.

Já era Europa quando o grande encontro aconteceu: o piercing dele com o piercing dela. Como os donos, se engancharam no banheiro; ao contrário dos donos, não queriam mais soltar. A cada tentativa de liberdade ela via estrelas. Queria se soltar, mas não queria. E assim tentaram, ignorando batidas na porta, turbulência, pouso, maca, ambulância e maçarico.

Gustavo Burla

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