Selfies do exílio

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No ventre materno, as mãos voam constantemente até a barriga, como se todos fossem uma só simbiose a amparar e ajudar. Ninguém acalenta a grávida nas noites de ansiedade e enjoo, nos momentos de apreensão e expectativa. Quando nasce, os olhares e as visitas são automáticos e bem-vindos, até que o interesse decai, transformando a jornada materna na mais prazerosa e solitária de todas.

As descobertas, as primeiras experiências e as novidades marcam a infância. Todo mundo valoriza os rabiscos como obras de arte, as apresentações de escola como grandes concertos. No fundo, não se diz que a criança é apenas mais uma de tantos. O sorriso encantado dos outros é tradução do “virar a cara” para se evitar a mediocridade. A inocência dos primeiros anos não é nada mais que ilusão.

Na adolescência, a cobrança por boas notas e conduta, além de responsabilidades, aumenta por causa da consciência. Dos pais, da família e da sociedade. Quem quer ser culpado pela inadimplência, pelo insucesso, pelo rebeldismo? Assim, os embates tornam-se frequentes por causa da imposição, quase sempre em prol do que se decide melhor ao jovem e se espera do mesmo, quase nunca pelo bem-estar, pelas aspirações, pelas diferenças dele. A presença e o apoio não são altruístas. Deviam. Ficam devendo.

O trabalho rodeia de pessoas e dissemelhanças. Mas, para o sucesso, é preciso se moldar e se inteirar. Os amigos rareiam presencialmente e explodem nas redes sociais com mensagens sem vida, comentários indevidos, apoios surpreendentes, posicionamentos gritantes. São presença virtual simples, longe de serem exequíveis. O amor vira uma tarefa, mais um encaixe, uma imposição. Por demais desejados, relacionamentos ganham espessos contornos de inadequação, porque o outro não se doa, não se enxerga além de si mesmo.

Com a aposentadoria, tempo disponível entra em ebulição, enquanto a disposição dos demais converge a abaixo de zero. Promessas de encontros e de companhia permanecem pétreas juras sem concretude. Ao morrer, a última visita gera incontáveis lembranças, vivências e importância. Até que todos viram as costas e se vão, pela primeira vez, condizendo essas atitudes pessoais com o papel (final) que a vida espera de nós.

José Eduardo Brum

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