Telefone no apartamento de baixo

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A cidade já se aquietava quando o telefone começou a tocar. Trinou algumas vezes. O som era baixo, de dia não seria ouvido. Talvez tivesse tocado de dia também, em silêncio. Talvez alguém tivesse atendido. Talvez não tivesse alguém. Mas o vizinho de cima ouviu.

De noite ele tocou, pela primeira vez ele tocou. Chamou uma vez e esperou. Chamou outra e calou-se pelo mesmo tempo. Mais um chamado e outro silêncio. Quando chamou a terceira vez, aquietou-se por um tempo. Falou outra e shhh. E depois mais outra. Repetiu o ritual com mais paciência que o vizinho de cima tinha para escutar.

Depois de longo silêncio, voltou à frequência e tentou e tentou. Ninguém para ouvi-lo exceto o irritado vizinho de cima, que esperava ouvir alô. Ao lado do telefone, o vizinho de baixo esperava cair a ligação para telefonar novamente e sorrir imaginando o vizinho de cima.

Gustavo Burla

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