Aritmética das palavras

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Começou sem querer, numa brincadeira sacana. Com oito anos, prodígio, na hora do intervalo, foi sinalando todos os erros de grafia, pontuação, acento e concordância dos trabalhos dos coleguinhas da turma da frente, pendurados nas paredes. Os pais, tão nervosos por agradar pela abstinência de afeto, fingiram não ver as marcações vermelhas grosseiras. Ele, por sua vez, ganhou uma suspensão e um sorriso orgulhoso da tia que serviu de combustível para o vindouro vício.

Na adolescência, assinava uma gama de revistas, das típicas de adolescentes, passando pelas de curiosos e cinema, além das informativas, tidas como imparciais. Lia de cabo a rabo, anotando os erros para depois escrever para a seção de “carta aos leitores”. Aproveitava para dar uma aula de português aos jornalistas que não tiveram o esmero de aprender bem a ferramenta de trabalho.

Prestes a concluir o ensino médio, não largou as aulas de redação. Tinha um prazer enorme, na madrugada, de corrigir silenciosamente cada texto. O gozo maior vinha na hora de debochar, digo, apontar os erros de cada aluno antes de explicar o jeito correto. Irradiava tanta vontade de ensinar que chegava até a ser irreverente.

Tudo mudou com o temido vestibular, que não serviu de bússola. Desde antes, nas entranhas, estava o desejo de fazer Letras. A importunação e a cobrança familiar o fizeram mudar. Achavam que ele era inteligente demais pra se desperdiçar como professor. Merecia profissão de mais prestígio e dinheiro. Por revolta, optou pelo extremo, engenharia.

Daí, a fórmula de vida foi certeira e natural. Tornou-se primeiro da turma, teve bons estágios, pôde galgar sempre melhores empregos, virou um bem sucedido profissional, formou família, criou pessoinhas atenciosas com a língua. Como de resto da equação, ficou o saudosismo da época em que o coração pulsava numericamente no limite pela lida com as letras.

José Eduardo Brum

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