Procrastinação

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Ele era um procrastinador nato e isso não é uma figura de linguagem. Nascera no fim da quadragésima segunda semana de gestão, numa cesariana de emergência feita numa mãe desesperada porque passara o tempo e nada de entrar em trabalho de parto. Também só berrou a plenos pulmões um minuto depois de o médico lhe dar a famosa palmada na bunda, quando a equipe inteira já estava achando que a criança não resistira a tanta espera.

Mal sabiam que esperar era com ele mesmo. Foi o último da creche a sentar, a andar, a falar e, durante boa parte do período de escola, foi o mais baixinho da turma, porque o último a crescer. No colégio, só estudava de véspera; na faculdade, só fazia os trabalhos meia hora antes das apresentações; no trabalho, o chefe acabou se acostumando a só esperar seus resultados no último minuto do prazo.

Adiou casamento e filhos o máximo que pôde e mesmo seus filhos adiaram os netos, sabendo que, se ele escolhesse, postergaria o momento de ser avô.

Só quando a vida de todos acabou antes da sua é que sentiu por, pelo menos uma vez, não ter sido mais rápido.

Táscia Souza

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