Choque de Culturas

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A culpa é da egípcia. Foi tudo culpa dela. Por dias, eu a ignorei, a achava feia, desengonçada. Tinha cara de nova, envolta em panos e tecidos bregas, totalmente desarmônicos nas formas e cores. Eu me sentia moderna e viva. Hoje, ela não me sai da cabeça. E eu nunca mais irei encontrá-la ou confrontá-la.

Na nossa viagem, as únicas interações com a egípcia foram duas, a voz autoritária de rainha da verdade que irrompiam e incomodavam de tempos e tempos, e o esbarrão que ela me deu no ônibus, ao gritar e gesticular que o veículo parasse, pelo amor a Alá, já fora do estacionamento do hotel. Todos riram. Eu sorri. Todos debocharam. Eu me alegrei, sentindo minha autoridade.

Enquanto a egípcia ia resgatar o passaporte, trancafiado no cofre do quarto, acariciei meu filho, sonolento. Era praticamente um presságio, como se ele já estivesse se desligando. Eu também quase adormeci, não fosse pelo retorno dela ao ônibus, quase 15 minutos depois.

Pra todos, a egípcia bravejava que não se arrependia do que fez, pois era uma pessoa sensata. Disse que assim que entrou nas dependências, guardou o passaporte e acabou esquecendo. Junto de europeus e outros americanos, tranquilos e relaxados, sem nunca terem vivido tempos atribulados, a atitude de precaução passou a ser vista como um deboche velado.

Por causa da egípcia, o motorista voou pra chegar a tempo nos locais destinados do nosso passeio turístico. E também esvoaçou mureta abaixo, caindo num rio. Naquela confusão, a última vez que a vi, ela ajoelhava e gesticulava, como se rezasse agradecendo por ter sido salva. Estava em júbilo. Escutei alguém traduzindo que ela sempre implorara por mais água no deserto onde viveu na juventude. Deus mandara a dádiva na hora certa, para ampará-la da morte.

E eu só queria lavar meu filho sujo de sangue e imóvel, já gelado. Pedindo que, por um milagre, ele abrisse os olhos e se mexesse.

José Eduardo Brum

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