Lapidando o sonho até gerar o som

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O barulho dos carros, do trânsito, da obra em frente, obra que não acabava nunca com aquela furadeira estúpida, do caminhão de lixo reciclável engolindo centenas e centenas de garrafas de vidro. Barulhos ali, da rua desperta embaixo de sua porta/janela francesa (agora podia dizer francesa sem parecer estar recitando revista de decoração; era francesa mesmo afinal, abrindo-se direto para uma Paris bem longe da Torre Eiffel: Paris da vista da parede do prédio em frente). E o barulho da criança falante do apartamento de cima (ou seria do de baixo?), mas falante de uma língua estranha que eles não conseguiam compreender – quase não se falava francês, nem do lado de fora nem do de dentro daquelas portas/janelas francesas.

Mas o maior barulho era o dentro. Não o de dentro do apartamento, que também rangia: o parquê; o fogão elétrico, a lava-roupas, a colchão de molas. Barulhos altos, todos, barulhos de abafar palavras. Só não aquelas que soavam e ressoavam ali, nos confins de suas cabeças.

Táscia Souza

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