Exercício narrativo

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Era uma convenção de narradores, convocada para discutir esse papel tão ingrato na literatura. A sessão foi aberta com uma discussão entre os narradores de terceira pessoa, o observador acusando os colegas de levarem vantagem ao terem acesso aos pensamentos dos personagens, ao passo que ele deveria se limitar a contar o que via. Não adiantou que eu dissesse que num dos meus empregos, o de narrador-testemunha, isso também acontece. ‘Pelo menos há um ponto de vista’, retrucou.

Ignorando as lamúrias do primo pobre, os gêmeos oniscientes digladiavam-se para saber quem sofria mais. De um lado, o seletivo lamentava ficar restrito a poucos ou até mesmo um único personagem, sem acesso às ideias ocultas dos demais; de outro, o onisciente neutro trazia nos ombros o peso de saber tudo.

Tentei mais uma vez entrar na conversa, mas nenhum deles estava interessado na dor das minhas múltiplas experiências, seja a de mero narrador-personagem, jogado dentro de uma história que não é prioritariamente minha e sobre a qual não tenho todas as informações, ou a de narrador-protagonista, obrigado a expor fatos e sentimentos íntimos aos olhos nem sempre benevolentes dos leitores.

Estávamos nesse impasse quando você chegou, atrasado, pouco lembrado, mas imponente. Quando nos demos conta, assustados, quem contava a história era você.

Táscia Souza

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