Arquivo da categoria: Gustavo Burla

São.

No cais da gare

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Estação de trem é triste…

É feliz!

As pessoas partem…

Chegam!

Sempre choram…

Isso é ruim?

Quando partem, sim.

E quando chegam?

Tem trem que nem para.

Para em outro lugar.

Isso é triste…

É esperançoso.

O trem não parar?

Imaginar pra onde ele foi…

Pra longe.

Deve ser bom de ir.

E voltar.

Pra ser recebido com alegria.

E com lágrima.

Por que tá chorando?

Por causa da conversa.

Ninguém chegou ou partiu.

Um dia você vai partir.

Eu?

Por que me trouxe aqui?

Porque gosto de ver os trens.

Um dia você vai neles?

Você quer ir?

Com você.

Sempre.

Gustavo Burla

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Seleção para orquestra

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Vamos lá, próximo!

Silvio Stromboli.

Stromboli? Italiano?

É, da Sicília. De parte de mãe.

E quer entrar na orquestra por quê?

Meu sonho, desde pequeno.

Não foi isso. Quer entrar na orquestra por que instrumento?

Ah. Desculpa, entendi que…

Qual instrumento?

Peido.

Qual?

Peido.

Você toca…

Peido.

Peido?

Peido.

Como que…?

Posso tocar o hino nacional.

Da Itália?

Todos.

Com peido?

Com peido.

Tem melodia?

Total.

Mais o quê?

Te mostro a diferença do samba pro funk.

No peido?

No peido.

Sério?

Sério.

(tempo)

Roberto!, peido é sopro ou percussão?

Gustavo Burla

A garota no trem

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O melhor de viajar de trem era o abandono. Se entregava à paisagem, era seu momento de estar sozinho. Era seu momento. Só seu. Mas naquela viagem sentiu algo diferente. Pensou na vida e não encontrou nada. Olhou pelo vidro da janela e não percebeu incômodo. Numa poltrona do outro lado do corredor havia um olhar.

Quando os olhos se cruzaram, sentiu nos dela o sorriso. Desviaram para as paisagens, mas sentiu quando ela voltou a perscrutá-lo. Olhou de volta e ele ficou. Bastava ele olhar para o lado ou para dentro de si e ela estava lá. Manteve o olhar firme.

Ela piscou, desviou, voltou e piscou de novo. Ele nem piscava. Ela corou e ele percebeu que ela pensara coisas olhando para ele. Viagem longa, banheiro na ponta do vagão, ela olhou para ele de forma diferente.

Ela foi para a ponta do vagão. Ele foi para a ponta do vagão. Voltou sozinho, sentou na poltrona e voltou a sentir seu momento. Só seu.

Gustavo Burla

Conectado com o tempo

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Estava pronto pra sair: moletom, calça comprida, luvas, gorro e até o cachecol com cheiro de guardado. A mãe perguntou aonde ia daquele jeito.

– É o tempo mãe, olha o aplicativo.

– Tem sol lá fora, um calor danado.

– O aplicativo disse que tava frio.

– Olha pra fora meu filho.

– Olha o aplicativo, mãe.

– Não tenho isso, mas tenho olho.

– Deve ter problema de conexão.

– O aplicativo?

– O tempo.

Gustavo Burla

Bioativismo

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Cara, quanto tempo!

Demais! Desde a faculdade que a gente não se encontra.

Cada um segue um rumo… Mas me conta, o que anda fazendo?

O restaurante dos meus pais tá crescendo e precisam de mim lá. Tem até franquia já. E você?

Tô no ativismo.

Em que área?

Biológica. Só uso e prego o consumo de materiais orgânicos.

Isso é fantástico, temos tentado colocar o máximo de orgânicos no restaurante.

Que bom que tem essa consciência, é saudável.

Compensa no corpo os custos no bolso.

Isso vai mais longe: além dos orgânicos, o ideal é consumir de produtores da região.

Mais barato por causa do transporte, né?

E incentiva a produção local, ajuda o meio ambiente, tem milhões de benefícios.

Verdade, não tinha pensado por este lado.

Agora mesmo tô indo pra uma manifestação.

Onde?

Na feira, pra impedir as pessoas de comprarem alface americana.

Alface americana?

É, um absurdo. Tanto alface nacional e o povo consumindo americana!

Mas alface americana…

Neo-imperialismo de merda! Quer matar a produção local! Não: a nacional!!!

Alface americana é…

Você não usa alface americana no seu restaurante, usa?!

Eu? Não! Não… Claro que não. Só…  crespa.

Muito bom, crespa é bom, bem brasileira.

Bem…

Aproveita e me conta, qual o prato principal do seu restaurante?

Couve de Bruxelas à moda de Paris…

Gustavo Burla

Negócio aftado

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Acordou para a viagem de negócios com o pior problema que poderia: afta. Para outros (gripe, ressaca, saco cheio…) já encontrara soluções nos anos de trabalho, mas para este, exceto cancelar tudo (inviável!), não havia fuga.

Levantou mais tarde, sabia que não conseguiria comer de manhã, mas não podia fugir do almoço com os parceiros da empresa. Enquanto comiam, discutiam os planos para a reunião da tarde no salão de exposições. A boca se movia o tempo todo.

Mal teve tempo para bochechar um remédio e já estava apertando mãos, sorrindo ardentemente e falando com clientes e potenciais compradores até a noite não ser mais uma criança. Despedia-se da maioria quando foi convidado para o previsto jantar que encerraria negociações.

Boca queimando, mal sentia o gosto da comida entre as falas, mas não poderia negar um prato sequer: o convite veio do dono do restaurante, cujo bar fechava mais tarde do que ele gostaria.

No silêncio da madrugada, chegou ao hotel, cumprimentou o recepcionista de tantas viagens conhecido e lamentou o dia tenso com afta: não sei se consigo resolver esse problema a essa hora da noite, mas vou tentar pro senhor.

Em poucos minutos tocou a campainha do quarto. A porta abriu-se para a mais bela mulher que ele vira fora das páginas com Photoshop: faço tudo, menos beijo na boca.

Gustavo Burla

Michael Jackson no metrô

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As teorias da conspiração estavam certas, ele não morreu, estava no metrô de Paris e Billy Jean vinha em sua terceira estrofe quando a porta abriu. O vagão parecia lotado, mas estava apenas cheio, e Michael, em sua versão com camisa florescente, tênis azul e vermelho e microfone imaginário conseguiu seu lugar ao lado do carrinho com a caixa de som do playback.

Passinho pra cá e pra lá, as pessoas dividiam-se entre virar pro lado, comentar baixinho ou esconder o riso e ele seguia dizendo que Billy Jean não era sua amante. Uma quatrocentona parisiense típica levantou-se enquanto o trem diminuía para a próxima estação e o carrinho do som estava no caminho. Ela esticou a mão para Michael, que recebeu as moedas, tirou o carrinho e ela esperou a porta abrir enquanto sacudia a cabeça no ritmo da música.

Diante do fato de que o menino não era seu filho e o trem seguia, Michael gritou everybody e os risos contidos escaparam, a alegria daquele pedaço do vagão mostrou que um dos viajantes filmava a ação do rei do pop com o celular. Sem mais que dois passos para o Moonwalker, girou, esticou braços e cantou mesmo na parada seguinte, quando os olhares sempre baixos para livros, jogos, chats, revistas, regaços cruzavam-se.

Pelas paradas, os sorrisos foram saindo e se transformaram em histórias para os amigos, no vídeo para os colegas de trabalho, na música procurada em casa ao chegar, na peça de teatro a ser escrita e nas lembranças toda vez que fosse entrar naquele carro do metrô.

Gustavo Burla

Café da manhã

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Com acompanhamentos que variavam conforme o local em que acordava ou as frutas da estação, o café da manhã era sempre um comprimido de Neosaldina. Desde a adolescência, questão hormonal, jurava sempre, tinha dores de cabeça pela manhã. Fez exames, tratamentos, até usou óculos, mas a solução era sempre a Neosaldina. Com água, café, suco, chá, Coca-cola ou nada, Neosaldina.

Em viagens, levava o suficiente da dose diária e assim se organizou para a longa temporada no exterior, a trabalho, em cursos de aprimoramento. No aeroporto, a interjeição:

Não pode levar remédio.

Preciso dele.

Quem disse?

Tomo há anos.

Tem receita?

Esse remédio não precisa de receita. Tem gente que nem considera remédio.

Então não precisa levar.

Preciso sim.

Nessa quantidade?

Um por dia.

Nessa quantidade é tráfico.

Quem disse?

Estou exercendo minha função e digo que não pode.

Mas é pra uso pessoal.

Não pode levar.

Naquele instante abriu as caixas contando cada dia da viagem e ingeriu os comprimidos um a um imaginando que poderia dormir até mais tarde por já ter tomado o café da manhã.

Gustavo Burla

Bunda quadrada

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Nasceu com a bunda quadrada. Quadrada literal, não hipérbole da pouca curva. Quadrada mesmo, um prisma, na verdade. Era de um jeito que, só vendo. Um amigo falou tijolo uma vez e foi o mais perto que alguém chegou. Pudessem ter tirado a medida, os ângulos, seria mais fácil explicar, mas ninguém conseguiu.

Como a bunda era quadrada, não rebolava pra não rasgar o vestido e não sentava em sofás pra não furar. Cadeiras só de madeira e com muito cuidado pra evitar o som seco e o olhar do dono achando que quebrou. Não era gorda nem podia ser magra, mas as ancas chamavam atenção. Só usava saia, mais ameno.

Trabalhava sentada na cadeira mais dura do escritório. Não costumava sair com colegas pra não ter que sentar em pufs, em areia de praia ou, fundamental, não dar intimidade pra um tapinha no traseiro. Mesmo assim trocava sorrisos, até porque era competente, por vezes funcionária do mês, que não se levantava nem pro cafezinho.

Depois do trabalho, quando os outros iam pro bar, ela ia pra escola de artes. Duas vezes por semana ia para a escola de artes. Era conhecida como a melhor modelo de lá, pois tinha peitos impressionistas equilibrando-se com o traseiro cubista.

Gustavo Burla