Arquivo da categoria: José Eduardo Brum

Doente por tudo aquilo que sempre se torna pessoal.

Lacônico retrospecto

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Foi numa mesa de bar que a proposta surgiu, prescrita de maneira decisiva. Gostariam de um terceiro integrante para a lida. Aceitou aquele bilhete premiado. Partiu leve, sem qualquer bagagem. E se descobriu realmente pertencente àquele maquinário desconhecido e repleto de possibilidades.

O trem pode ter começado devagarzinho, vagamente. No entanto, ele vai sempre acelerar. É a ordem natural da vida. Cabe a você aproveitar o prazer do cansaço da viagem e o êxtase em descobrir conhecimentos e emoções diferentes, inimagináveis. Também deve apreciar os sacolejos e o mal estar do percurso, afinal os trilhos são feitos de pedras.

Parar o trem quando se quer ou acha ser preciso não são opções. Não deve ser uma escolha de uma pessoa só. Outros contam com as futuras chegadas e o intercâmbio de ideias. O coletivo ainda fala mais alto que as linhas individuais de ação. Apesar de ter acumulado bagagens, experiências, expectativas e mais planos de viagens, o sentimento de recuo, ou melhor, a necessidade de uma manobra drástica torna-se cada vez mais palpável e sinalizadora.

Ou você desce de numa estação quando tudo está parado, pronto para chorosas despedidas. Ou pula.

É um rompimento digno de nascimento o salto para o desconhecido, quando se deixa um mundo de possibilidades pra trás em prol de uma terra segura e estática. Às vezes queremos o simples. Às vezes ansiamos pelo leve. Cansa só esperar. Se já é difícil aguardar para quem não faz nada ou fica esperando na janela vendo o trem passar, imagina pra quem é atuante, chora e solta suor pela causa.

Pensar e refletir não vão adiantar de nada, tem horas que a racionalidade não explica porque o vagão deveria descarrilhar, mas não o fez, nem a razão de haver um desmoronamento quando todo o arrimo era tão seguro. Então, a coragem, a propulsão, o salto e o voo irrompem da mesma maneira como a explosão de uma montanha para se criar novos caminhos.

O que fica depois, não se sabe ainda. Um dia as palavras retornam para narrar, porque atualmente a aterrissagem está praticamente prolongada no tempo.

José Eduardo Brum

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Alguma vitória

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O pedaço de pau foi batido três vezes em cima da bancada. Meu formigamento da língua perdeu a relevância. Nem grosso, nem fino, nem completamente torto ou reto, era dourado e branco. Apontava para dois homens que conversavam intimamente:

– Dá pra parar? – o dono do bar olhava para mim, como se eu fosse o único expectador. – Eles já se beijaram duas vezes aqui. Isso não é lugar.

Pedi outra dose de cachaça. Quanto mais bebesse, quem sabe, menos transpareceria o que sou:

– Aquele dali também é. – o pau sentenciou outro fanfarrão. – Ele apanha direto na rua.

Queria ter perguntado se ele realmente bateria ou batera naqueles homens. No lugar, virei meu copo. O formigamento atingiu o corpo todo.

Do meu lado, um garoto de cabelos cacheados, brinco no nariz, piercings na orelha, usando um conjunto de bermuda e camiseta, que mais parecia um vestido, pediu uma bebida quente. Sorriu e pechinchou para ganhar mais pagando menos:

– Vai ter show hoje? – o dono do bar deixava-se seduzir. – Não sabia que você tinha um gato tatuado na panturrilha.

Nitidamente, outro pau apontava para o andrógino. Me concentrei na música. Tocava Elton, num ritmo agitado. Todos balançavam, felizes, rindo e bebendo. Pelo menos, a vitória musical nós alcançamos.

José Eduardo Brum

Rompida

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Foram três chamados até perceber. Boa de ouvido, achou que viessem do lava jato ao lado. Não imaginava que o próprio quarto tinha virado um:

– Senhora, me ajuda. Segure aqui. Firma com o pano aqui pra não espirrar muito. – era irônico. O jato chegara a atingir a janela na outra extremidade, teto, cama, aparelhos eletrônicos. O seu anjo da guarda deveria ser fashion e estudioso, pois nem os livros, nem o guarda-roupa foram golpeados.

A contragosto, tomou o lugar do bombeiro hidráulico que foi até o 18º andar para desligar registro. Seu apartamento era 501. Espirrando como cascata, inundando quarto, corredor, sala, banheiro, a água não era pura, carregava detritos de tijolo que marcavam as paredes, o chão e ela mesma. Sem ver, achava que a pele era arranhada por onde o fluido escorria.

De repente, percebeu que a máquina de quebrar parede permanecia ligada à tomada, uma ilha de ferro quente, envolta em água nervosa. Moveu-se para desligar e voltou. Tinha medo do choque. Largou o lugar de novo e retornou rapidamente. A pressão, sem as mãos e o pano, faziam com que o volume se espalhasse mais.

Então, abstraiu do perigo que não era abstrato. Imaginava-se recebendo uma descarga, o corpo rodopiando, os cabelos em fumaças, a inanição. Fechou os olhos. A adrenalina era boa apesar do risco de morte. Pelo menos, ganharia páginas de jornal. A família iria criar uma memória afetiva de lembrança. Não mais prazos, não mais correrias, não mais obrigação. Apenas o breu.

Foram três chamados até abrir os olhos. Desligada de ouvido, achou que viessem de Deus, de São Pedro ou do anjo da guarda. Rapidamente, largou os braços e panos:

– Senhora, quem vai te ajudar a secar isso tudo? – o bombeiro hidráulico reparecera. – Tenho outro compromisso. Vai dar um trabalhão puxar essa água toda.

Com gosto, ela vazou dali.

José Eduardo Brum

Tia Nira

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Os 86 anos só eram entregues pelas bochechas altas e proeminentes que esticavam a pele do rosto, dando a impressão de vivência. Para minhas afilhadas, no entanto, as maçãs do rosto eram engraçadas, diferentes, com ar de bruxa de conto de fadas. Fora isso, os cabelos mantinham-se cheios e vivos, apenas ganhavam uma tintura aqui e acolá pra disfarçar os sinais grisalhos. O corpo era leve com muito orgulho, porque a mantinha em movimento, ativa, ao contrário das sobrinhas que herdaram o corpo pesado, sedentário e acomodado. As pernas sempre foram secas e finas; os seios, baixos e parados, mesmo depois de ter amamentado direto por quatro anos. A diferença entre o casal de filhos era de um ano e seis meses.

Apesar de tantas experiências, de ter visto inúmeras mudanças no país, de ter acompanhado a saga familiar de desunião e desestruturação, apenas um fato a marcara. Aos 18 anos, ficara viúva. Podia ter imaginado qualquer infortúnio, menos aquilo. Casara-se aos 16 com um senhor de 43 anos que a adorava. Já estavam no segundo filho quando o coração não aguentou tamanha devoção. Parou. De repente, tudo o que se esperava dela, como esposa e mãe, ruiu. Estava livre, com pensão gorda e casa própria.

Não quis outro homem em casa, os filhos não tiveram um pai. Não tinha fotos do esposo pelos cômodos, sonhava todas as noites com ele. Não precisava trabalhar para se manter, arranjava bicos de costura para dar exemplo aos rebentos. Não tinha telefone fixo para evitar o contato de piedade dos familiares, alegrava-se com as visitas surpresas. Não acompanhava os filhos e netos nas viagens de família, aproveitava o passe livre da idade pra conhecer lugares singelos e sem atrativos:

– Tem algum arrependimento, tia? – pergunto quando ela está em silêncio, depois de ter contado um pouco de sua trajetória.

Ela pensa, esvazia o copinho de cerveja:

– Tenho. Não devia ter comido o segundo pedaço de pizza. O estômago é o único órgão que mantenho sem sobrecarregar.

José Eduardo Brum

Na toca

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Escondia as coisas, desde que se conhece por gente. A mãe conta que ela passou a andar com menos de um ano, mas se alguém a pegava dando passos, caia no chão e voltava a engatinhar. Só foi revelar o som da voz, aos cinco, quando entrou na escola, embora nunca tenha sido aluna de fazer perguntas. Só observava.

Acima da média, ela não pôde prosseguir os estudos, porque tinha engravidado aos 13 anos. Revelou a barriga quando estava prestes a nascer. O choque, a decepção e a fúria da família ajudaram-na a acobertar o fato de que tinha sido abusada, uma única vez, totalmente indefesa num terreno baldio. Quis gritar e não conseguia. Nada saia fácil dela. No fim do estupro, permaneceu retorcida, afundada na areia, como se pudesse desaparecer.

Teve a filha de cesariana, não dilatava. Amamentou sem ninguém ver. Trabalhava fora sem saberem onde e quanto ganhava. Apenas carregava uma máquina fotográfica. Nutria o desejo de ser psicóloga, em guardar os segredos e problemas alheios, nunca revelando-os a ninguém. Acabou aceitando que muita coisa não precisava ser dita ou explanada para que se possa viver.

José Eduardo Brum

Sem falas

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Num fim de mês, o drama perdeu o lírico e o épico. Perdeu não, deixou de ter por perto. Assim como as grandes tragédias, personagens saem de cena. Voltam. Permanecem presentes na história, mesmo sem serem vistos pelo público. São imprescindíveis das mais variadas formas.

Embora tenha sabido que tal afastamento era inevitável, não se preparou, porque drama se representa no “acontecendo”, no aqui e agora. Assim, deu-se conta de que a poesia ia brilhar sua luz verde e reverberar sua musicalidade amorosa apenas quando não as teria mais. E entendeu que o épico ia ser exigente e gentil além-mar, espalhando-se como deveria ser.

Por isso, fiel à essência, o dramático apenas ousou a usar palavras e falas, sem descrição, sem lirismo, sem grandiloquência. É tempo de…

José Eduardo Brum

Bagagens intransponíveis

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Sentados na mesma mesa, Carlinhos estava acompanhado dos filhos e da esposa. Vitão carregava uma barriga bem saliente. Ainda tinham assunto, afinidade, encanto e afeto após décadas sem se verem, apenas ouvindo os sucessos alcançados, prefeitura e bispado respectivamente. De qualquer forma, o papo fluía sem apelarem pras questões banais de trabalho. Não se tocavam, não rememoravam, não cruzaram olhares. As pessoas entregam-se nos pequenos detalhes. Às vistas dos mais novos, era esperançoso perceber o reencontro de uma amizade antiga, de dois camaradas de longa data. As matronas e os senhores, por outro lado, evitavam mirar (embora julgassem) devido ao assunte e à pouca vergonha, relembrando o quão grudados eram. Até demais. A bondade, o apoio mútuo, a dedicação e a entrega não são evocadas no decorrer; escândalos, confusões, deboches e maldade perduram. As inconvencionais formas de amor incomodam mesmo anos depois que terminam.

José Eduardo Brum

Choque de Culturas

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A culpa é da egípcia. Foi tudo culpa dela. Por dias, eu a ignorei, a achava feia, desengonçada. Tinha cara de nova, envolta em panos e tecidos bregas, totalmente desarmônicos nas formas e cores. Eu me sentia moderna e viva. Hoje, ela não me sai da cabeça. E eu nunca mais irei encontrá-la ou confrontá-la.

Na nossa viagem, as únicas interações com a egípcia foram duas, a voz autoritária de rainha da verdade que irrompiam e incomodavam de tempos e tempos, e o esbarrão que ela me deu no ônibus, ao gritar e gesticular que o veículo parasse, pelo amor a Alá, já fora do estacionamento do hotel. Todos riram. Eu sorri. Todos debocharam. Eu me alegrei, sentindo minha autoridade.

Enquanto a egípcia ia resgatar o passaporte, trancafiado no cofre do quarto, acariciei meu filho, sonolento. Era praticamente um presságio, como se ele já estivesse se desligando. Eu também quase adormeci, não fosse pelo retorno dela ao ônibus, quase 15 minutos depois.

Pra todos, a egípcia bravejava que não se arrependia do que fez, pois era uma pessoa sensata. Disse que assim que entrou nas dependências, guardou o passaporte e acabou esquecendo. Junto de europeus e outros americanos, tranquilos e relaxados, sem nunca terem vivido tempos atribulados, a atitude de precaução passou a ser vista como um deboche velado.

Por causa da egípcia, o motorista voou pra chegar a tempo nos locais destinados do nosso passeio turístico. E também esvoaçou mureta abaixo, caindo num rio. Naquela confusão, a última vez que a vi, ela ajoelhava e gesticulava, como se rezasse agradecendo por ter sido salva. Estava em júbilo. Escutei alguém traduzindo que ela sempre implorara por mais água no deserto onde viveu na juventude. Deus mandara a dádiva na hora certa, para ampará-la da morte.

E eu só queria lavar meu filho sujo de sangue e imóvel, já gelado. Pedindo que, por um milagre, ele abrisse os olhos e se mexesse.

José Eduardo Brum

De cujus corporal

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– Sou ator de corpo. Uso o meu corpo nas cenas e gravações há mais de 20 anos.

– Ah, sim, sei. Dublê.

– Não. Não sou dublê, sou ator de corpo. Sou aquele que fica numa cena atrás, preenchendo o espaço. Adoro quando tem de compor uma fila, dá pra aparecer bastante e criar toda uma situação.

– Ah, sim, agora sei. Figurante.

– Não. Não sou figurante, sou ator de corpo.

– E tem diferença?

– Claro. Tem até ator de texto. Olha só pros nomes de cada! Figurante só figura, é paisagem, é o que chamamos de “árvore 23” nas produções infantis. Não faz nada. É inanimado.

– Pra mim, dublê, figurante e ator de…, isso aí que você diz ser…

– Ator de corpo.

– Sim, ator de corpo. É tudo a mesma coisa. Não é famoso, fica em segundo plano. Não aparece de verdade.

– Você é quem pensa. Eu tenho de criar, sabia? Toda vez, preciso pensar em quem é aquele senhor sentado na praça, como ele vive, se tem amigos e família, o que viu na vida. Depois, introjeto isso e planejo a forma como meu corpo vai se portar quando interpretar esse personagem. É mais que técnica. Tem toda uma concepção artística.

– Pra mim, isso continua sendo figuração.

– Lógico que não! Presta atenção na nomenclatura. O figurante é quase um cenário. Nós, atores de corpo, damos vivacidade e camadas. Podemos até roubar a cena, tá?

– Aposto que paga mal.

– Claro que paga! Arte costuma não dar dinheiro, a não ser que você seja famoso comercialmente. Ah, dublê corajoso e que finge bem também ganha uma boa grana.

– Fingir? O dublê finge?

– Ele tem que fingir, é substituto nato. Não pode parecer que é um dublê, tem que se camuflar. Pra mim, são todos uns santos. Eles emprestam o corpo pr’um ator não sofrer. Uma vez, quando era mais novo, tentei ser dublê, que desastre! Quase tive que vir aqui pedir aposentadoria antes do tempo. Deus me livre! Adoro ser ator de corpo. É minha vida!

– Ué, e por que está aqui? Pelo que vejo ainda faltam alguns anos pra aposentar.

– Tecnologia, meu caro. Não precisam mais da gente. Não precisa mais de gente. Agora preenchem todo o espaço cênico com pessoas digitalmente criadas. O ser humano ficou obsoleto até nas artes.

José Eduardo Brum