Arquivo da categoria: Táscia Souza

Com todos os ites que se possam imaginar.

Contando os dias

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No apartamento havia um calendário branco, do tamanho de uma folha A3, pendurado na parede ao lado da mesa da cozinha. Ali anotavam tudo: consultas médicas futuras, trocas de lente de contato, início do período menstrual, visitas que chegariam para vê-los dali a alguns dias, datas de viagens futuras. E anotavam sonhos também. Não descrições dos devaneios noturnos do inconsciente ou do subconsciente (não entendiam a fundo de psicologia para compreender a diferença), mas sonhos de olhos abertos. Sabiam, por exemplo, o dia em que se mudariam para a casa nova, que ainda não existia; o dia em que um lançaria seu primeiro livro; o dia em que o outro seria entrevistado na avant-première de seu grande filme; o dia em que nasceria o primeiro filho, e depois o segundo; o dia em que o sonho deles — todos os sonhos deles — sairia do sonho e se tornaria som e luz e palavras e vida bem ali, diante deles.

— Mas e se não der certo? Se ninguém ler, ninguém ouvir, ninguém olhar, ninguém existir? E se não entrar no ar? Se não houver ar suficiente pra entrar.

— A gente marca o calendário e continua sonhando, todos os dias.

Táscia Souza

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Enquanto houver sol

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— Às vezes eu penso em como seria, sabe? Morrer? Não é pensamento suicida, nada disso não. Pensamento hipotético mesmo. Daqueles: o que aconteceria se eu morresse?, igual: o que aconteceria se chovesse hoje? Mesma coisa. E ainda assim dá um arrepio. O calo dói com a ameaça de chuva, o braço arrepia com a perspectiva de morte. — Pausa. Suspiro. Desculpas. — Eu não devia falar assim perto da senhora, me perdoa. É que às vezes… a senhora pensa nisso muitas vezes?

A senhora, cabelos muito brancos e rugas de muito tempo, lhe lança um olhar de brilho infantil.

— Eu? Só penso em viver. E no que aconteceria se fizesse sol.

Táscia Souza

Fashion trip

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A meia de lã era companhia inseparável para o frio. Ou seria, se não puísse com tamanha rapidez. Tinha calculado dez pares para uma viagem de vinte dias. Achava que, como usaria sobre outra meia e era possível lavar nos hotéis em que se hospedaria, uma quantia equivalente à metade da jornada estava de bom tamanho. A primeira furou no dedão na primeira usada; a segunda no calcanhar. Ainda restam oito, pensou sem dar muita importância, enquanto largava-as nas lixeiras das suítes antes de fazer o check-out.

O ritmo aumentou, porém, na proporção da dor nos pés angariada com os passinhos de museu. Mais caminhadas equivaliam a mais bolhas, que por sua vez significavam mais rasgos. Chegou ao ponto de usar três meias de lã no mesmo dia, uma para a manhã, outra para a tarde e a terceira para a noite. Só que não havia meias que chegassem — eram só dez para vinte!, desesperou-se — e no fim teve que se contentar em não descartá-las pelos hotéis afora. É só não cismar de comprar sapato e ter que experimentar na frente do vendedor, resolveu, que fica tudo bem.

No embarque de volta, na fila do raio-x, livrou-se do cinto, do casaco e tirou tablet, notebook e cremes devidamente embalados da mochila. Tudo com antecedência para nada apitar, nem a máquina nem a cabeça do agente da polícia aeroportuária. Até que um as-botas-por-favor a fez tremer. Tirou-as, devagarzinho, tentando pensar num modo de esconder a estampa de joaninhas das meias de baixo que vazava constrangedoramente pelos enormes rombos nos dedos e no calcanhar de lã das meias de cima.

Sentindo os olhos de todos os policiais no seus pés, reuniu a pouca dignidade que lhe restava e informou, com classe, que polainas eram a última moda em Paris.

Táscia Souza

Cinco doses

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Para Leo, Pedro, Pedro, Tó e Vinicius

No dia em que comi poesia, pensei ter tido uma indigestão. Os versos me borbulharam as entranhas e vazaram pela boca, pelos dedos, pelos olhos, pelos poros. Jorros de palavras que não cabiam em mim.

Na emergência, pedi um remédio para o estômago.

– Comi um quilo de poesia e acho que não caiu bem, doutor.

– Poesia nunca faz mal – e me receitou melodia.

– Mas isso não é pro estômago, doutor; é pro ouvido.

– Tome cinco. A seco.

Nesse dia, virei canção.

Táscia Souza

Ideia torta

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Lá vem o Fulano com ideia torta! era o que todos — família, amigos, colegas de trabalho — diziam quando o Fulano abria a boca. E entortavam os olhos, uma forma de enfatizar o quão torta era a ideia em pauta, independente de qual fosse. Mas a verdade é que não era culpa do Fulano (o nome era esse mesmo, ideia torta da mãe; talvez o caso fosse genético). Havia uma espécie de força que o impelia ao pensamento tortuoso por natureza. E nem as inúmeras consultas médicas deram resultado. O ortopedista garantiu que o paciente não tinha uma perna mais curta que a outra, de modo que a tendência a seguir caminhos sinuosos não era uma condição congênita. O oftalmologista também não detectou estrabismo, o que provava que, se tinha um olhar enviesado sobre as coisas, a culpa não era do olho em si. O neurologista assegurou que não havia qualquer indício de distonia, síndrome neurológica que, segundo o Dr. Google, desencadeia contraturas musculares descontroladas e repetitivas, posturas anormais e, claro, torções.

O fato é que conviveu com o problema por anos, sem diagnóstico e sem perspectiva. E as ideias tortas do Fulano eram praticamente uma instituição no grupo de convívio, assunto divertido das reuniões de família, piada entre os amigos que se encontravam no bar, motivos de risadas nas confraternizações do trabalho.

Seguiu assim, aos volteios, até contratar dona Beltrana como faxineira. Ela, no esfrega daqui, tira poeira dali, esbarrou no quadro pregado em diagonal na parede da sala do apartamento, desalinhando/alinhando aquela que era a grande ideia torta do Fulano em termos de decoração (quem prega um quadro em diagonal, pelamordedeus?). O resultado: prêmio de publicitário do ano para o Fulano e muito menos diversão nas festas da firma, conversas de bar e almoços de família.

Táscia Souza

O primeiro texto do ano

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Este ano começamos uma nova fase do projeto e você será responsável pelo primeiro texto. O orgulho da função, nesse caso, era diretamente proporcional à dificuldade da tarefa. Um primeiro texto de uma nova fase, assim como um primeiro texto de um novo ano, precisa ser repleto de otimismo, de desejos de prosperidade, de palavras-lâmpadas que iluminem o futuro, de clichês como esse antes da vírgula. Mas ela não queria, nas definições dos dicionários, apenas uma disposição para ver as coisas pelo bom lado e esperar sempre uma solução favorável das situações, nem fazer parte dos que, mal começa um ano, já o consideram o melhor dos anos possíveis, sem sequer tentarem se tornar as melhores pessoas possíveis para dar conta disso. Tampouco queria desejar uma prosperidade oca, essa palavra grande da qual só se lembram na virada do calendário. E, mais do que tudo, não queria luzes artificiais, mas palavras-estrelas, cuja luz as pessoas continuassem a ver mesmo depois de apagadas. Se não era possível fugir das metáforas batidas – como essa antes do ponto -, que pelo menos fossem aquelas traduzidas pela palavra mais bonita: esperança.

Táscia Souza

Exercício narrativo

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Era uma convenção de narradores, convocada para discutir esse papel tão ingrato na literatura. A sessão foi aberta com uma discussão entre os narradores de terceira pessoa, o observador acusando os colegas de levarem vantagem ao terem acesso aos pensamentos dos personagens, ao passo que ele deveria se limitar a contar o que via. Não adiantou que eu dissesse que num dos meus empregos, o de narrador-testemunha, isso também acontece. ‘Pelo menos há um ponto de vista’, retrucou.

Ignorando as lamúrias do primo pobre, os gêmeos oniscientes digladiavam-se para saber quem sofria mais. De um lado, o seletivo lamentava ficar restrito a poucos ou até mesmo um único personagem, sem acesso às ideias ocultas dos demais; de outro, o onisciente neutro trazia nos ombros o peso de saber tudo.

Tentei mais uma vez entrar na conversa, mas nenhum deles estava interessado na dor das minhas múltiplas experiências, seja a de mero narrador-personagem, jogado dentro de uma história que não é prioritariamente minha e sobre a qual não tenho todas as informações, ou a de narrador-protagonista, obrigado a expor fatos e sentimentos íntimos aos olhos nem sempre benevolentes dos leitores.

Estávamos nesse impasse quando você chegou, atrasado, pouco lembrado, mas imponente. Quando nos demos conta, assustados, quem contava a história era você.

Táscia Souza

Os sete

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Deve ser uma mania mesmo bíblica, começar textos com “no princípio”, mas foi no princípio mesmo que criou Deus o céu e a terra. E, obviamente, criou junto a Avareza, aquele sentimento também tão tipicamente bíblico do “venha a nós” e nada do “vosso reino”. Desse apego excessivo aos céus e terras acumulados a cada dia, foram forjados o Orgulho – ah, a vaidade, esse pecado favorito… – e a Ira, essa movida contra quem quer que ouse mexer no que é “meu”. Mas daí Deus gritou seu próximo “Fiat!” para a Inveja, porque o tal do “meu” é ciumento e nunca basta, assim como não bastaram nem Eva nem maçã, fazendo com que gula e luxúria (ou vice-versa) fossem, convenhamos, quase um pecado só. Por fim, com certo enfado do mundo recém-construído, Deus decidiu ter seu merecido descanso no sétimo – dia e pecado! – e, com isso, criou a preguiça. É a única explicação para continuar descansando até hoje.

Táscia Souza

Lapidando o sonho até gerar o som

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O barulho dos carros, do trânsito, da obra em frente, obra que não acabava nunca com aquela furadeira estúpida, do caminhão de lixo reciclável engolindo centenas e centenas de garrafas de vidro. Barulhos ali, da rua desperta embaixo de sua porta/janela francesa (agora podia dizer francesa sem parecer estar recitando revista de decoração; era francesa mesmo afinal, abrindo-se direto para uma Paris bem longe da Torre Eiffel: Paris da vista da parede do prédio em frente). E o barulho da criança falante do apartamento de cima (ou seria do de baixo?), mas falante de uma língua estranha que eles não conseguiam compreender – quase não se falava francês, nem do lado de fora nem do de dentro daquelas portas/janelas francesas.

Mas o maior barulho era o dentro. Não o de dentro do apartamento, que também rangia: o parquê; o fogão elétrico, a lava-roupas, a colchão de molas. Barulhos altos, todos, barulhos de abafar palavras. Só não aquelas que soavam e ressoavam ali, nos confins de suas cabeças.

Táscia Souza