Ideia torta

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Lá vem o Fulano com ideia torta! era o que todos — família, amigos, colegas de trabalho — diziam quando o Fulano abria a boca. E entortavam os olhos, uma forma de enfatizar o quão torta era a ideia em pauta, independente de qual fosse. Mas a verdade é que não era culpa do Fulano (o nome era esse mesmo, ideia torta da mãe; talvez o caso fosse genético). Havia uma espécie de força que o impelia ao pensamento tortuoso por natureza. E nem as inúmeras consultas médicas deram resultado. O ortopedista garantiu que o paciente não tinha uma perna mais curta que a outra, de modo que a tendência a seguir caminhos sinuosos não era uma condição congênita. O oftalmologista também não detectou estrabismo, o que provava que, se tinha um olhar enviesado sobre as coisas, a culpa não era do olho em si. O neurologista assegurou que não havia qualquer indício de distonia, síndrome neurológica que, segundo o Dr. Google, desencadeia contraturas musculares descontroladas e repetitivas, posturas anormais e, claro, torções.

O fato é que conviveu com o problema por anos, sem diagnóstico e sem perspectiva. E as ideias tortas do Fulano eram praticamente uma instituição no grupo de convívio, assunto divertido das reuniões de família, piada entre os amigos que se encontravam no bar, motivos de risadas nas confraternizações do trabalho.

Seguiu assim, aos volteios, até contratar dona Beltrana como faxineira. Ela, no esfrega daqui, tira poeira dali, esbarrou no quadro pregado em diagonal na parede da sala do apartamento, desalinhando/alinhando aquela que era a grande ideia torta do Fulano em termos de decoração (quem prega um quadro em diagonal, pelamordedeus?). O resultado: prêmio de publicitário do ano para o Fulano e muito menos diversão nas festas da firma, conversas de bar e almoços de família.

Táscia Souza

Bioativismo

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Cara, quanto tempo!

Demais! Desde a faculdade que a gente não se encontra.

Cada um segue um rumo… Mas me conta, o que anda fazendo?

O restaurante dos meus pais tá crescendo e precisam de mim lá. Tem até franquia já. E você?

Tô no ativismo.

Em que área?

Biológica. Só uso e prego o consumo de materiais orgânicos.

Isso é fantástico, temos tentado colocar o máximo de orgânicos no restaurante.

Que bom que tem essa consciência, é saudável.

Compensa no corpo os custos no bolso.

Isso vai mais longe: além dos orgânicos, o ideal é consumir de produtores da região.

Mais barato por causa do transporte, né?

E incentiva a produção local, ajuda o meio ambiente, tem milhões de benefícios.

Verdade, não tinha pensado por este lado.

Agora mesmo tô indo pra uma manifestação.

Onde?

Na feira, pra impedir as pessoas de comprarem alface americana.

Alface americana?

É, um absurdo. Tanto alface nacional e o povo consumindo americana!

Mas alface americana…

Neo-imperialismo de merda! Quer matar a produção local! Não: a nacional!!!

Alface americana é…

Você não usa alface americana no seu restaurante, usa?!

Eu? Não! Não… Claro que não. Só…  crespa.

Muito bom, crespa é bom, bem brasileira.

Bem…

Aproveita e me conta, qual o prato principal do seu restaurante?

Couve de Bruxelas à moda de Paris…

Gustavo Burla

O primeiro texto do ano

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Este ano começamos uma nova fase do projeto e você será responsável pelo primeiro texto. O orgulho da função, nesse caso, era diretamente proporcional à dificuldade da tarefa. Um primeiro texto de uma nova fase, assim como um primeiro texto de um novo ano, precisa ser repleto de otimismo, de desejos de prosperidade, de palavras-lâmpadas que iluminem o futuro, de clichês como esse antes da vírgula. Mas ela não queria, nas definições dos dicionários, apenas uma disposição para ver as coisas pelo bom lado e esperar sempre uma solução favorável das situações, nem fazer parte dos que, mal começa um ano, já o consideram o melhor dos anos possíveis, sem sequer tentarem se tornar as melhores pessoas possíveis para dar conta disso. Tampouco queria desejar uma prosperidade oca, essa palavra grande da qual só se lembram na virada do calendário. E, mais do que tudo, não queria luzes artificiais, mas palavras-estrelas, cuja luz as pessoas continuassem a ver mesmo depois de apagadas. Se não era possível fugir das metáforas batidas – como essa antes do ponto -, que pelo menos fossem aquelas traduzidas pela palavra mais bonita: esperança.

Táscia Souza

Negócio aftado

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Acordou para a viagem de negócios com o pior problema que poderia: afta. Para outros (gripe, ressaca, saco cheio…) já encontrara soluções nos anos de trabalho, mas para este, exceto cancelar tudo (inviável!), não havia fuga.

Levantou mais tarde, sabia que não conseguiria comer de manhã, mas não podia fugir do almoço com os parceiros da empresa. Enquanto comiam, discutiam os planos para a reunião da tarde no salão de exposições. A boca se movia o tempo todo.

Mal teve tempo para bochechar um remédio e já estava apertando mãos, sorrindo ardentemente e falando com clientes e potenciais compradores até a noite não ser mais uma criança. Despedia-se da maioria quando foi convidado para o previsto jantar que encerraria negociações.

Boca queimando, mal sentia o gosto da comida entre as falas, mas não poderia negar um prato sequer: o convite veio do dono do restaurante, cujo bar fechava mais tarde do que ele gostaria.

No silêncio da madrugada, chegou ao hotel, cumprimentou o recepcionista de tantas viagens conhecido e lamentou o dia tenso com afta: não sei se consigo resolver esse problema a essa hora da noite, mas vou tentar pro senhor.

Em poucos minutos tocou a campainha do quarto. A porta abriu-se para a mais bela mulher que ele vira fora das páginas com Photoshop: faço tudo, menos beijo na boca.

Gustavo Burla

Exercício narrativo

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Era uma convenção de narradores, convocada para discutir esse papel tão ingrato na literatura. A sessão foi aberta com uma discussão entre os narradores de terceira pessoa, o observador acusando os colegas de levarem vantagem ao terem acesso aos pensamentos dos personagens, ao passo que ele deveria se limitar a contar o que via. Não adiantou que eu dissesse que num dos meus empregos, o de narrador-testemunha, isso também acontece. ‘Pelo menos há um ponto de vista’, retrucou.

Ignorando as lamúrias do primo pobre, os gêmeos oniscientes digladiavam-se para saber quem sofria mais. De um lado, o seletivo lamentava ficar restrito a poucos ou até mesmo um único personagem, sem acesso às ideias ocultas dos demais; de outro, o onisciente neutro trazia nos ombros o peso de saber tudo.

Tentei mais uma vez entrar na conversa, mas nenhum deles estava interessado na dor das minhas múltiplas experiências, seja a de mero narrador-personagem, jogado dentro de uma história que não é prioritariamente minha e sobre a qual não tenho todas as informações, ou a de narrador-protagonista, obrigado a expor fatos e sentimentos íntimos aos olhos nem sempre benevolentes dos leitores.

Estávamos nesse impasse quando você chegou, atrasado, pouco lembrado, mas imponente. Quando nos demos conta, assustados, quem contava a história era você.

Táscia Souza

Lacônico retrospecto

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Foi numa mesa de bar que a proposta surgiu, prescrita de maneira decisiva. Gostariam de um terceiro integrante para a lida. Aceitou aquele bilhete premiado. Partiu leve, sem qualquer bagagem. E se descobriu realmente pertencente àquele maquinário desconhecido e repleto de possibilidades.

O trem pode ter começado devagarzinho, vagamente. No entanto, ele vai sempre acelerar. É a ordem natural da vida. Cabe a você aproveitar o prazer do cansaço da viagem e o êxtase em descobrir conhecimentos e emoções diferentes, inimagináveis. Também deve apreciar os sacolejos e o mal estar do percurso, afinal os trilhos são feitos de pedras.

Parar o trem quando se quer ou acha ser preciso não são opções. Não deve ser uma escolha de uma pessoa só. Outros contam com as futuras chegadas e o intercâmbio de ideias. O coletivo ainda fala mais alto que as linhas individuais de ação. Apesar de ter acumulado bagagens, experiências, expectativas e mais planos de viagens, o sentimento de recuo, ou melhor, a necessidade de uma manobra drástica torna-se cada vez mais palpável e sinalizadora.

Ou você desce de numa estação quando tudo está parado, pronto para chorosas despedidas. Ou pula.

É um rompimento digno de nascimento o salto para o desconhecido, quando se deixa um mundo de possibilidades pra trás em prol de uma terra segura e estática. Às vezes queremos o simples. Às vezes ansiamos pelo leve. Cansa só esperar. Se já é difícil aguardar para quem não faz nada ou fica esperando na janela vendo o trem passar, imagina pra quem é atuante, chora e solta suor pela causa.

Pensar e refletir não vão adiantar de nada, tem horas que a racionalidade não explica porque o vagão deveria descarrilhar, mas não o fez, nem a razão de haver um desmoronamento quando todo o arrimo era tão seguro. Então, a coragem, a propulsão, o salto e o voo irrompem da mesma maneira como a explosão de uma montanha para se criar novos caminhos.

O que fica depois, não se sabe ainda. Um dia as palavras retornam para narrar, porque atualmente a aterrissagem está praticamente prolongada no tempo.

José Eduardo Brum

Michael Jackson no metrô

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As teorias da conspiração estavam certas, ele não morreu, estava no metrô de Paris e Billy Jean vinha em sua terceira estrofe quando a porta abriu. O vagão parecia lotado, mas estava apenas cheio, e Michael, em sua versão com camisa florescente, tênis azul e vermelho e microfone imaginário conseguiu seu lugar ao lado do carrinho com a caixa de som do playback.

Passinho pra cá e pra lá, as pessoas dividiam-se entre virar pro lado, comentar baixinho ou esconder o riso e ele seguia dizendo que Billy Jean não era sua amante. Uma quatrocentona parisiense típica levantou-se enquanto o trem diminuía para a próxima estação e o carrinho do som estava no caminho. Ela esticou a mão para Michael, que recebeu as moedas, tirou o carrinho e ela esperou a porta abrir enquanto sacudia a cabeça no ritmo da música.

Diante do fato de que o menino não era seu filho e o trem seguia, Michael gritou everybody e os risos contidos escaparam, a alegria daquele pedaço do vagão mostrou que um dos viajantes filmava a ação do rei do pop com o celular. Sem mais que dois passos para o Moonwalker, girou, esticou braços e cantou mesmo na parada seguinte, quando os olhares sempre baixos para livros, jogos, chats, revistas, regaços cruzavam-se.

Pelas paradas, os sorrisos foram saindo e se transformaram em histórias para os amigos, no vídeo para os colegas de trabalho, na música procurada em casa ao chegar, na peça de teatro a ser escrita e nas lembranças toda vez que fosse entrar naquele carro do metrô.

Gustavo Burla

Os sete

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Deve ser uma mania mesmo bíblica, começar textos com “no princípio”, mas foi no princípio mesmo que criou Deus o céu e a terra. E, obviamente, criou junto a Avareza, aquele sentimento também tão tipicamente bíblico do “venha a nós” e nada do “vosso reino”. Desse apego excessivo aos céus e terras acumulados a cada dia, foram forjados o Orgulho – ah, a vaidade, esse pecado favorito… – e a Ira, essa movida contra quem quer que ouse mexer no que é “meu”. Mas daí Deus gritou seu próximo “Fiat!” para a Inveja, porque o tal do “meu” é ciumento e nunca basta, assim como não bastaram nem Eva nem maçã, fazendo com que gula e luxúria (ou vice-versa) fossem, convenhamos, quase um pecado só. Por fim, com certo enfado do mundo recém-construído, Deus decidiu ter seu merecido descanso no sétimo – dia e pecado! – e, com isso, criou a preguiça. É a única explicação para continuar descansando até hoje.

Táscia Souza

Alguma vitória

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O pedaço de pau foi batido três vezes em cima da bancada. Meu formigamento da língua perdeu a relevância. Nem grosso, nem fino, nem completamente torto ou reto, era dourado e branco. Apontava para dois homens que conversavam intimamente:

– Dá pra parar? – o dono do bar olhava para mim, como se eu fosse o único expectador. – Eles já se beijaram duas vezes aqui. Isso não é lugar.

Pedi outra dose de cachaça. Quanto mais bebesse, quem sabe, menos transpareceria o que sou:

– Aquele dali também é. – o pau sentenciou outro fanfarrão. – Ele apanha direto na rua.

Queria ter perguntado se ele realmente bateria ou batera naqueles homens. No lugar, virei meu copo. O formigamento atingiu o corpo todo.

Do meu lado, um garoto de cabelos cacheados, brinco no nariz, piercings na orelha, usando um conjunto de bermuda e camiseta, que mais parecia um vestido, pediu uma bebida quente. Sorriu e pechinchou para ganhar mais pagando menos:

– Vai ter show hoje? – o dono do bar deixava-se seduzir. – Não sabia que você tinha um gato tatuado na panturrilha.

Nitidamente, outro pau apontava para o andrógino. Me concentrei na música. Tocava Elton, num ritmo agitado. Todos balançavam, felizes, rindo e bebendo. Pelo menos, a vitória musical nós alcançamos.

José Eduardo Brum