Sofrer por antecipação

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para Gui e Bi


De longe eu os vi diante da lanchonete e pensei que em breve não estariam mais comigo. Ganhei chocolate que li e livro que degustei, sem muita pressa e sem perder cada instante com meus amigos. Estava diante deles como de um altar, com joelhos flexionados perante imagens às quais rezo.

 

E para eles teci minha ladainha como ouvi os cânticos que proferiam. Aproveitei cada palavra como se fosse a última, estavam ali para em breve não mais. Partiriam mais rapidamente que o pedido levado pelo garçom. E entre sanduíches o assunto ramificava, voando da fruta à raiz por um relâmpago floema e retornado pelos cabos do xilema verbal.

 

Lanchonete cheia e a conta, a maldita, o sinal para ir embora. Cada um para seu canto, para longe, ele para mais longe ainda. Mas um brinde: a possibilidade de irmos juntos até a bifurcação, onde ele nos deixaria e de onde ela partiria para me deixar. Como são sofríveis as despedidas.

 

Sofríveis agora, que sinto saudade com chocolate. Quando eram presentes bastavam-me sorrisos.

 

 

Gustavo Burla

 

 

Publicado originalmente em http://hipocondria.blog.terra.com.br, 4 de agosto de 2008.

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