Ele, Eu

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Ele pode trazer qualquer mulher para casa, dormir com elas, me deixar trancado em outro cômodo para que eu não atrapalhe seu prazer. Depois tenho de lidar com as manchas na cama, os incontáveis fios de cabelo espalhados por box, chão e pia. O cheiro de imundície perdura do mesmo modo que a sensação de injustiça. Não posso levar ninguém para minha intimidade, tem que sempre ser corrido, pela manhã, enquanto ele trabalha.

Ele pode convidar os amigos e beber a madrugada inteira. Caem bêbados juntos, roncam próximos sem que isso configure qualquer problema. Nunca pude chamar os meus colegas para fazermos o mesmo. Seria uma forma escancarada de configuração de quem sou. Tenho de criar laços fraternos em bares, no meio de todos, nunca no meu espaço doméstico.

Ele sabe dizer, aprendeu rapidinho e abusa do uso do ‘não’. Eu só sei expelir ‘sim’, ou sorrir, com medo de que percebam o quanto é incômodo e devastador fazer por cortesia, mesmo não querendo.

Ele nunca dorme com a avó, não se preocupa, não alivia o fardo dela. Eu durmo todas as noites, aceito o roncar, o apertar e a aproximação que desestabilizam meu sono. Quando a avó passa o final de semana fora, ele vem para a minha cama, toma o lugar. Assim, nunca estou só fisicamente.

Ele é questionado sobre faculdade, trabalho, academia e o andar do namoro. Eu não sou tema de nada. Acreditam que sou correto demais, prestativo demais, dedicado demais. Eu também malho, mesmo cansado de faculdade e da jornada de trabalho. Eu também tenho relacionamentos, não sou um ermitão. Nunca me veriam com os mesmos olhos.

Ele não lava nenhum prato ou vasilha, eu organizo a casa. Ele esparrama as coisas, eu arrumo a cama dele. Ele deixa sempre a porta aberta, é trabalhoso rodar a chave na fechadura. Eu molho plantas e as coloco na área para pegar sol. Ele dorme o domingo inteiro de folga. Eu pago todas as contas inclusive o boleto da faculdade dele.

Eu vim primeiro, ele veio três anos depois. Eu saí de casa primeiro, dois anos depois ele se mudou para onde eu vivia. Finjo não ver seus erros, não adianta falar. Ele finge não aceitar a minha condição de ser, seria doloroso aceitar.

Quem sabe, quando eu for embora meu irmão será o que mais vai sofrer?

José Eduardo Brum

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